sexta-feira, 20 de novembro de 2009

AS RAZÕES DO AMOR

AS RAZÕES DO AMOR- RUBEM ALVES"

Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : "A rosa não tem"porquês". Ela floresce porque floresce." Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento. "Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra. "Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo. "Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..." Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá? Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar... Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor... Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra..."

Encontrei minhas origens

ENCONTREI MINHAS ORIGENS

Encontrei minhas origens em velhos arquivos
livros...
encontrei em malditos objetos troncos e grilhetas
encontrei minhas origens no leste no mar em imundos tumbeiros
encontrei em doces palavras...
cantos em furiosos tambores...
ritos encontrei minhas origensna cor de minha pele nos lanhos de minha alma em mimem minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei encontrei-as enfim
me encontrei
(OLIVEIRA SILVEIRA)

sábado, 17 de outubro de 2009

O Brincar do Sertão

O brincar do Sertão

Primeiro descobri que gosto muito de brinquedo que me deixa quieta. Depois fui procurar quem ficava quieto brincando. Aí eu descobri um monte de meninos que têm esse jeito de brincar. E o que acabou acontecendo, sem querer na minha vida, foi que viajei lá longe, pelo sertão de Minas Gerais, para conhecer mais desses meninos e seus brinquedos. Fui muito curiosa, e entre os anos de 2003 e 2008, visitei várias vezes Morro da Garça, Cordisburgo e Andrequicé. Pequeninos lugares sertanejos onde me encantei com o brincar de muitos meninos cheios de alegria e imaginação. E a cada viagem eu aprendia mais, e queria saber mais e mais sobre esse tipo de brincar. E no meio disso tudo, esqueci de contar, quem também estava aprendendo brinquedos eram eles, porque tudo o que eu aprendia com um queria ensinar para o outro. Virou uma confusão de quem sabia ou não sabia brincar que, para arrumar essa história, resolvi escrever este livro: para os meninos queitos do sertão e para os meninos quietos da cidade. Vocês vão perceber que esses brinquedos são feitos de sentimentos e de coisas que são quase nada para muita gente, mas que se transformam em quase tudo dentro da nossa cabeça. E sabe quem teve essa ideia de falar sobre esses brinquedos? Foi um escritor brasileiro que viveu sua infância no sertão, na cidade de Cordisburgo. O nome dele é joão Guimarães Rosa. Eu descobri, quando já estava no meio da meninada, brincando de tudo e nada ao mesmo tempo, que o João não conseguiu escrever esse livro. Ele morreu antes de realizar seu sonho. Por isso, achei que, se ninguém escreveu até hoje um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos, eu deveria me aventurar a escrever.Vamos lá brincar?

Livro: Um Pequeno Tratado de Brinquedos para Meninos.
Obra de Selma Maria.
Editora Peirópolis.

As Três Vidas

Quem é António Augusto Millhouse Pascal? Que segredos rodeiam a vida deste homem de idade, que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e uma lista de clientes tão abastados e vividos, como perigosos e loucos? São estes os mistérios que o narrador, um rapaz de uma família modesta, vai procurar desvendar não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por Millhouse Pascal se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida. Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta - época de todas as ganâncias - e, desvendando o passado turbulento do seu patrão - na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial -, As Três Vidas é uma viagem de autodescoberta através do «outro». Cruzando a história sangrenta do século XX com a história destas personagens, este romance é também sobre a paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Millhouse Pascal, e sobre a procura pelo destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do seu avô, inexoravelmente ligado ao destino de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da estreita corda bamba sobre a qual ela se sustém.


João TordoNasceu em Lisboa em 1975 num ambiente artístico. Filho do cantor Fernando Tordo e de Isabel Branco que sempre esteve ligada ao cinema e mais tarde à moda. Andou no Liceu Pedro Nunes e «era o único que não jogava rugby», em vez disso lia, 'vício' que lhe pegou o padrasto depois do divórcio dos pais. Acabado o 12º ano, resolveu ir para Filosofia por ser «uma boa maneira de se pôr a pensar». Entrou na Universidade Nova de Lisboa e sentiu o peso da exigência do curso. As aulas de Filosofia medieval marcaram-no e confessa que a partir dali nunca mais viu o mundo da mesma maneira. Depois do curso ainda trabalhou em Lisboa algum tempo como jornalista freelancer mas sentiu a «necessidade de sair daqui e ir viver outras coisas». Foi o que fez e em 1999 rumou a Londres para fazer um mestrado em Jornalismo. A cidade influenciou-o a tantos níveis que quis ficar até «ao limite das suas possibilidades», mas quando deu por si a trabalhar num bar e a fazer traduções percebeu que era tempo de partir. A próxima paragem tinha que ser Nova Iorque - sempre o fascínio das cidades - e os cursos de escrita criativa do City College. Ia às aulas de manhã, servia às mesas de um restaurante durante o jantar e escrevia pela noite dentro. Os Homens sem Luz nasceram assim. No futuro, há outras histórias para contar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Você é jovem, velho ou dinossauro?

Você é jovem, velho ou dinossauro? Autor - Ignácio de Loyola Brandão Ilustradora - Camila Mesquita Este é o "almanaque" que sempre quis montar e para o qual guardei material ao longo dos anos. Pequenas lembranças sem maior importância, que definem tempos vividos.Como fui, fomos, minha/nossa infância, casa, bairro, rua, hábitos familiares comuns, a evolução das coisas, palavras usadas e que se foram, palavras novas cujo sentido ainda nos escapa. Não é nostalgia, nem um tratado, a não ser um tratado de puro divertimento, pra zer, curiosidade. A memória tem mecanismos próprios e age segundo sua própria vontade. Lembro-me de uma coisa de uma maneira, você de outra, o terceiro de uma versão diferente. Pensamos que nos conhecemos, pensamos que temos certa idade. Este livro mostra que podemos ser mais jovens. Fatos que pareciam distantes estão perto. Ou mais velhos. Situações que pareciam próximas estão lá atrás, longe. Repasse um pouco do que viu, vivenciou, fez, sonhou, quis ter, procurou ser. E suas rela ções com o mundo de hoje.
Editora: Global

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Um estranho poder de cura

UM ESTRANHO PODER DE CURA
( Kenzaburo Oe )

"Meu filho deficiente mental, Hikari, foi despertado pela voz dos pássaros para a música de Bach e Mozart e acabou produzindo suas próprias obras. As pequenas peças que ele inicialmente compôs eram cheias de frescor e prazer. Pareciam gotas de orvalho brilhando sobre a relva. A palavra inocência é composta do prefixo "in", que significa "não", e de "nocere", "ferir". Ou seja, ela quer dizer "aquele que não fere". A música de Hikari era uma manifestação natural de sua própria inocência. Conforme ele passou a criar mais obras, no entanto, não pude deixar de ouvir nelas também a voz de uma alma escura e atormentada. Apesar de deficiente, seus esforços extenuantes permitiram que ele melhorasse suas técnicas de composição e aprofundasse suas concepções. E isso fez com que ele descobrisse no fundo de seu coração uma massa de tristeza que até então ele fora incapaz de expressar com palavras. O fato de expressá-la em música cura Hikari de sua tristeza, é um ato de recuperação. Mais ainda, seus ouvintes aceitaram essa música como algo que também os fortalece e restaura. Nesses fenômenos, eu encontro as razões para acreditar no estranho poder curativo da arte."

Trecho do discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Kenzaburo Oe

domingo, 13 de setembro de 2009

Prece ao Quixote

Prece ao Quixote

Ah, Quixote! Venha nos salvar com a chama, com seu grito, com sua capacidade de sonhar.
Venha com fidelidade de Sancho, com amor encantado de Dulcinéia, com sua espada afiada e certeira e com a sua lúcida loucura.

Precisamos destruir os moinhos de certos inventos que torturam o nosso sono e sonhos.

As máquinas de voar ameaçam nossas cabeças e deixam-nos um bélico medo.
Precisamos preservar o ar, o verde, as flores e pássaros para garantir a vida.

Quixote, amigo, os reis com todas as pompas e frenéticos discursos, são frágeis e torpes. Estão nus e presos ao engano.
São dirigidos por poderes invisíveis e temos que digeri-los diariamente nas imagens a cores da tevê. Eles enrolam as palavras e nos enrolam escondendo-nos o caos.

Ah, Quixote amigo, venha, venha com urgência nos salvar.


Do livro: Alice no País da Poesia
Poeta: Elias José
Editora: Peirópolis